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Acontecem episódios e fatos, que marcam toda uma vida para sempre. Nem o ácido corrosivo do tempo consegue apagar o que ficou gravado no metal inoxidável da memória. As vezes em que recuo no tempo, em busca de uma história, que mereça registro, tenho que mergulhar fundo no oceano da vida, e de lá emergir vitorioso com o tesouro encontrado.

Uma das minhas virtudes quando criança era sempre a desobediência. Certa vez, ao notar que minha mãe estava ocupada com os afazeres domésticos, saí as escondidas de casa para mais uma travessura, entre outras tantas que acumulei na infância e uma boa parte da minha juventude. A fixação desse acontecimento se deve a um casual incidente em que fui protagonista, na época em que contava entre 12 ou 13 anos.

Neste bendito dia, ouvi um caminhão anunciando que havia chegado em João Pessoa o circo Stewanovick, com a troupe de palhaços, acrobatas, malabaristas e toda aquela fauna selvagem que tanto atrai a meninada. O circo seria armado na lagoa. A lagoa é um lugar pitoresco no centro de João Pessoa, que sempre acolhe com facilidade este tipo de espetáculo e outros eventos onde a população citadina possam se divertir a vontade.

O desembarque do circo atiçou minha curiosidade para ver de perto os leões, tigres, elefantes e toda aquela bicharada que tanto encantava os meus olhos de criança. E lá fui eu, todo feliz para estação de trem onde estavam os animais e grande parte dos artistas.

Na trajetória até os vagões que estavam os animais, haviam vários estabelecimentos comerciais. A Casa Cunha Dilácio me chamou atenção e não contendo a curiosidade parei e entrei para apreciar os artigos que estavam expostos ao público. Havia entre eles, uma pia de louça toda montada com torneira belíssima. E foi justamente nessa peça decorada que encontrei a minha perdição.

Me aproximei e achei por bem que devia abrir a torneira para ver a água sair. Nesse momento o desastre aconteceu… A pia se desmonorou toda, fazendo um barulho danado e se espatifou no chão partindo-se em mil pedaços. Não tive dúvidas sai porta a fora e pensei: “Pernas prá que te quero!“. Desisti de ver os bichos e voltei prá casa correndo. Ao chegar, entrei de mansinho e fui para o meu quarto sem dizer nada a minha mãe do que tinha acontecido.

Algum tempo depois da tragédia, estava eu a passear na rua onde houve o desastre sem nem me lembrar do ocorrido quando um senhor com pasta na mão me chamou e disse: “Você pode me ajudar garoto? Tenho uma carta para seu pai, e não sei o nome dele, como devo colocar na correspondência?” – indagou ele. “Francisco Guimarães” respondi. Ele me agradeceu dizendo: “Vou levar a conta da minha pia que você quebrou para ele pagar“.

O leitor já pode imaginar o efeito causado por esta noticia. Fiquei logo imaginando uma duzia de bolos, no mínimo! Era o prêmio que eu sempre recebia da palmatória manejada com maestria pelas mãos fortes de meu pai, toda vez que saia fora da linha. Antevendo o futuro que me esperava, contei a minha mãe, todos os detalhes do meu ato, implorando proteção contra a palmatória implacável.

Minha mãe, lembro bem, era muito bonita: cabelos longos e soltos, olhos azuis e um rosto de formato quase arredondado, dava-lhe um traço todo especial de beleza. Esses atributos junto a elagância do seu tipo, encantavam meu pai. Um desejo ou um pedido seu eram atendidos prontamente sem contestação. E ela, mais que ninguém conhecia esse poder sobre seu marido.

Quando ele chegou em casa na hora do almôço ela o recebeu com o abraço costumeiro, e lhe disse: “Tenho um pedido a lhe fazer. Getro fez mais uma das suas, desta vez, foi só um descuido e não merece castigo“. Seu Chico ouvi tudo calado, e depois só fez balançar a cabeça em sinal positivo. Mesmo assim, fui dormir preocupado.

No dia seguinte, Dona Luzia – minha mãe – que gostava de tomar banho com sabonete líquido, pediu-me para comprar um vidro do dito cujo. Sai correndo para cumprir esta missão e ganhar de vez a absovição total do meu pecado! O nome do meu anjo protetor: Sabão Aristolino. Comprei a encomenda milagrosa e entreguei-a minha querida mãe. Então ela me disse: “Pode ficar tranquilo meu filho, dessa vez seu pai não vai tocar um dedo em você.

Após estravasar todo sentimento e emoção no relato da minha história – ou melhor do meu causo – cheguei a conclusão que, realmente, água mole em pedra dura, tanto bate até fura… mas se estiver misturada com um sabãozinho líquido melhor ainda!

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