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O personagem deste causo foi uma figura lendária em João Pessoa, Campina Grande e adjacências da Paraiba. Seus feitos, recheados  da mais fina malandragem, apresentavam uma imaginaãção rica de recursos e dotada sabedoria. O folclórico Pedro Pixaco desenvolvia toda a sua esperteza nas mais variadas formas. Era um anti-herói que conseguia sair-se bem das mais difã­ceis empreitadas.

Pedro, por incrível que pareça, era totalmente analfabeto. Cor negra, com quase dois metros de altura, o refinamento com que se trajava, era o seu passaporte para credibilidade. Para complementar o seu poder de “realizações miraculosas”, ele sempre trazia na bagagem folhetos de propaganda, com estes dizeres convincentes: “Professor Pedro dos Santos, conhecedor profundo dos Mistérios Orientais nos estudos das Ciências Ocultas”. E diz com precisão: “O presente, o passado e o futuro de todos aqueles consulentes que o procuram”.

E foi assim que o nosso astuto Pedro desembarcou de mala e cuia em uma cidadezinha pobre e carente do interior da Paraiba. Ao  chegar, foi logo se inteirando das maiores premências daquele lugar atrasado. Ouviu do povo queixas de não poder contar com uma igreja maior, onde toda a população – de maioria católica -, pudesse rezar mais à vontade.

De posse daquelas reivindicações, ele saiu a procura do padre da cidade. Encontrou o clérigo orando na capelinha da igreja. Pedro aproximou-se devagarinho e sussurrou no seu ouvido: “Reverendo, Deus escreve certo por linhas tortas. O Senhor pode não acreditar, mas foi Ele que me enviou. Venho trazer a soluãção para o construir a Igreja que a cidade tanto precisa e deseja”.

O paroco tomou um baita susto com aquela figura enorme saã­da do nada. E Pedro continuou: “Basta jogar este bilhete aqui”, tirando do bolso do paletó um número que ele havia visto na casa lotérica mais próxima. Previamente, já havia engendrado tudo. Para ratificar sua lábia, arranjou um folha de jornal onde dizia: “O diretor de um abrigo de pobres de tal cidade ganhou na loteria milhares de contos de réis”. O padre, mesmo sendo uma pessoa culta, mostrou interesse na conversa, indagando-o sobre como o felizardo milionário teve o palpite do bilhete. “A pessoa que me mostrou essa luz, pediu segredo” – respondeu Pixaco com a maior cara-de-pau.

Mesmo incrédulo com aquela aparição repentina e uma proposta prá lá de Bagdá, o cura, diante da necessidade de abrigar um número maior de devotos para ouvir sua pregações, foi cedendo. “E se foi realmente Deus quem me enviou esse mensageiro?” pensava consigo mesmo. Para encurtar a história, algumas horas depois estava o padreco amarrando quatro cédulas de cem mil réis em quatro pontas de um lenço, sugestão oferecida por Pixaco.

“A cruz também tem quatro lados. Amarre direitinho para dar efeito positivo e êxito certo, pela força que o dinheiro traz, sendo colocado nas quatro extremidades do pano” – instruia Pedro. Essa altura, o padre já estava totalmente nas mãos de Pixaco. Depois de feita a mandinga, mandou logo um coroinha comprar o bilhete que o anjo negro lhe havia sugerido.

Passado alguns dias, saiu o resultado da loteria. O bilhete salvador não havia sido premiado. Frustado em suas esperanças e com remorso de ter jogado em uma coisa proibida pela Igreja, o padre agora é quem vai a procura de Pedro.

Todo desconfiado, para que as pessoas não percebam que ele foi lesado, encontra Pixaco num bar. Chamando-o de lado, disparou a seguinte queixa: “Seu Pedro, o senhor me enganou. Me fez jogar na loteria com a certeza de ser premiado. Tudo mentira, isso não se faz, é pecado. O que o senhor me diz disso tudo?

O sabido Pedro respondeu com a maior naturalidade do mundo: “Seu vigário, se eu soubesse do bilhete premiado, o senhor acha que eu ia lhe dar? Quem jogava ele era eu. Muito obrigado. Que Deus lhe abençoe por ter ajudado a quem precisa!”

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