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Na maioria das vezes, quando vou apresentar um causo novo, ou melhor dizendo, um causo velho, recorro sempre ao retrocesso do tempo. Aí me encontro vivendo aventuras de ainda criança onde todos os fins de semana viajava de canoa pelo rio Paraíba em companhia de meu pai com direção ao Engenho Jaburu.

O seu Chico, – como era conhecido meu pai – impreterivelmente fazia essa viagem no sábado, porque no domingo era dia de pagamento aos trabalhadores do engenho. Eu sempre ia junto para prestar uma pequena ajuda na hora do acerto de contas dos que trabalhavam e moravam em nossa fazenda, e dos agregados que permaneciam por lá enquanto durava a safra da cana.

A minha função era atender os pedidos feito pelos trabalhadores no barracão. O barracão era uma espécie de vendinha ou bodega,  que continha os gêneros prementes de necessidade básica daquela gente. O amigo internauta nem imagina a funda e doce emoção que se apossa desse seu escritor quando relata episódio dessa natureza.

Eu gostava de criar canários da terra motivado pelo harmonioso canto e também por serem bons de briga. O meu pai, Ave Maria, nem de leve poderia imaginar essa minha predileção. Para realizar tal aventura com sucesso procurava sempre João, um morador do engenho que, além de demonstrar afeição pelo filho do patrão, também era um criador de passarinhos.

João era quem cuidava da minha fauna, aparecendo como verdadeiro dono. Era o laranja, como se diz na linguagem atual. Em agradecimento ao serviço prestado pelo amigo, eu facilitava no peso e nos preços na hora de anotar na caderneta as suas compras feitas no barracão. E assim estavam os dois bem servidos.

João sempre foi visto por seus amigos como inteligente, espirituoso e falante. Um exímio contador de causos. Talvez seja possível que a minha inclinação por tão adorável passatempo, tenha nascido pela razão de ouvir muitas das histórias que João contava.

Vou aproveitar este espaço para prestar uma homenagem a você meu saudoso e inesquecível amigo João, revelando aos amigos internautas um dos causos contados por ti com o teu próprio linguajar:

“Aí seu Geto – era assim que ele me tratava apesar de na época ainde ser uma criança – minha muié pediu prá mim comprar uma cuia na feira de Santa Rita, uma cidadizinha a menos de dez quilômetros de João Pessoa-PB, aí eu fui. Cheguei na fêra e procurei a casa que vendia a cuia que eu precisava. Era um casarão danado de grande, cheio de portas por todo lado, quase não acertava direito por onde entrá. Chamei o dono da venda e preguntei pela minha incumenda: ‘Tem cuia de pau de ferro?’ O moço me olhou todo espantado cuma nem subesse o que diabo eu queria.

“Cuia de pau de ferro é essas conchas de tirar sar em panela. Antonce eu disse: ‘Meu sinhô, cuma é qui uma coisa qui tem tanta serventia, inda havê gente qui ignore?’ Aí seu Geto, pur caso dessa e outras eu vou lhe contá um causo qui aconteceu cum
eu. Ostro dia meu cumpade Dunda me cunvidou prá armoçar na casa dele. Quando foi na hora do armoço, mi dero uma pareia de taier prá cumê a farofa junto cum a asa e o pescoço de uma galinha. Foi um trabaio danado seu moço e eu triminei sem acertar cumê o qui me dero, mais pode crê, a lição serviu. Quando saí dali, comprei uma pareia de taier no barracão e fui prá casa treiná. E trenei tanto, que hoje, de taier eu como inté cuaiada!”

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