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O meu espírito se renova todas as vezes que viajo no tempo para reviver através da mente momentos inusitados, vívidos de histórias – ou melhor de ‘causos’ – que ainda teimam em se mostrar inteirinhos, perenes e eternos. E foi nesse cenário que a minha imaginação armou o causo que segue seu caminho, descrito nas linhas abaixo.

Pedro Pixaco, aquela figura singular, maliciosa e treiteira que já retratei aqui em causo anterior volta a atacar. Os amigos internautas não vão acreditar o que o nosso anti-herói teve a coragem de aprontar em João Pessoa-PB. O golpe muito bem engendrado, começou no matutino denominado A União que naquela época era o jornal de maior prestígio da capital paraibana. Nesse jornal, Pedro inventou, mentiu, tramou, e executou um dos mais audaciosos e temerosos apliques de sua vida.

Não sei quem, mas disseram para ele que um lutador campeão de boxe em fim de carreira, pretendia realizar uma luta amistosa com o intuito de se promover e ganhar algum dinheiro. Santa Rosa, era o nome do ex-campeão baiano, da categoria peso médio que, já passando dos 40 anos, deixara a idade minar-lhe as forças e, por essa razão, o desafio de lutar era apenas em termos amistosos.

Pedro não perdeu tempo: Arranjou o pseudônimo de Kid Chocolate e apresentou-se como candidato para realização do combate pugilístico. Pixaco, com toda disposição que lhe era peculiar, afirmou ao jornal sua disposição em derrotar Santa Rosa e que marcassem logo o dia, hora e local onde seria realizado o encontro dos dois lutadores.

Por se tratar de um acontecimento inédito no meio desportivo paraibano, a novidade logo correu aos ouvidos do grande público, e o interesse para assistir o espetáculo só aumentava. O cine São Pedro foi o escolhido para recepcionar a noitada pugilistica. Após os contedores firmarem as condições da bolsa para cada um, ficou acertado o seguinte termo: O cinema ficaria com 50% da renda nas vendas dos ingressos, os outros 50% seria dividido entre os dois lutadores, não haveria prêmio maior para o vencedor.

Santa Rosa aceitou lutar, embora sabendo que iria enfrentar um adversário mais forte e mais jovem e pesado do que ele. Pedro com seus quase dois metros de altura e cento e tantos quilos de peso, enquadrava-se na categoria peso pesado do boxe. O seu opositor não chegava a pesar oitenta quilos. Essa diferença na altura e no peso, era natural o temor do mais fraco.

Vendo aproximar-se o dia da luta, Santa Rosa chamou Pedro e pediu quase implorando: “Por favor não me machuque muito…” Pedro, com todo seu vozeirão respondeu assim: “Vou lhe estraçalhar no ringue! Você vai voltar pra Bahia em cima de uma maca!”. Era esse o palavreado do gigante de ébano, acompanhado de mais alguns adjetivos insultosos.

Finalmente chegou o dia do combate entre Davi e Golias. O cinema se preparou para acolher a luta como manda o figurino: construiu um ringue em cima do palco, contratou juizes entendidos em luta de boxe e por último o apresentador dos cartéis dos dois lutadores.

Soou o gongo e foi dado o início da luta. Pedro levantou os braços, todo desajeitado e numa ginga que não tinha nada ver com luta de boxe, logo recebeu um direto no queixo, desabando no chão igual fardo de lã. O juiz começou a contagem adotada para essas ocasiões: “Um, dois, três…” Pedro abriu um olho e fechou o outro, dizendo assim: “Você pode contá até mí, que eu num me levanto mais daqui!!”

Não é preciso dizer o que o público fez com as cadeiras do cinema…

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