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Montes Claros, cidade de Minas Gerais onde habita um povo acolhedor e hospitaleiro! Os breves dias em que estive por lá, percorri muitas de suas ruas e visitei os lugares onde a população se reúne para bater papo e recrear. Observando, pude constatar um desenvolvimento cultural de alto nível.

A minha primeira viagem a esta encantadora cidade aconteceu no final da década de 50, quando meu querido amigo Coriolando Moreira (o Cori), me convidou para conhecer a cidade onde morava os seus familiares. Cori é um mineiro inteligente, trabalhador que sabe como poucos o segredo de descobrir tesouros. Tive a felicidade de conhecê-lo na minha juventude e nos tornamos grandes amigos. Uma amizade que já perdura por mais de cinco décadas.

O convite para visitar Montes Claros veio em boa hora, pois, como gosto bastante de poesia e, tendo lido um poema “matuto” de autoria de um montesclarense chamado Cândido Canela, encontrei a oportunidade perfeita para conhecê-lo pessoalmente e adquirir a sua preciosa obra. Para os amigos internautas avaliarem o meu interesse no referido livro, vou registrar em poucas linhas Casa de Bastião, o poemeto de Canela que me encantou:

Numa vespa de São João,
Na casa do Bastião
Tava quente uma quadria!
Bem no meinho da dança,
O Zequinha, o Zeca Pança,
Largou da dama Maria!

Pediu licença ao seu pá,
Dizendo que ia tomá,
Um cafezinho ligeiro.
A dança logo parou
Ninguém mais ali dançou,
Pois fartava um cavaiero.

Daí a pouco o Zequinha,
Foi entrando na salinha,
Desconfiado e medroso
E dando um estalo na boca
Foi dizendo prá cabocla,
Êta cafezinho gostoso!

Más o Tomaz do Encantado
Que tava tomado de pinga pura,
Gritou assim pru Zequinha:
Zequinha, qui diabo é isso moço?
Tu isqueceu no pescoço
O currião da cintura!

Por essa pequena amostra, vejam se não valia a pena conhecer tal figura. O meu amigo Cori, sabendo das minhas intenções e tendo Cândido Canela como seu amigo, não se fez de rogado, levou-me para conhecer o poeta doutor. Digo doutor, porque além do talento poético, ele exercia a profissão de dentista.

Ao chegar em seu consultório, lá estava Cândido atendendo um cliente. Quando nos viu, fez um sinal com as mãos para aguardarmos um pouco. Terminado o trabalho, veio nos atender Após as formais apresentações, revelei o motivo da minha visita: Adquirir um volume do seu livro, visto que já conhecia alguns poemas e havia gostado da sua obra. A oportunidade de conhecê-lo “ao vivo e a cores” era a chance também, se fosse possível, o obséquio de conter no mesmo o seu autógrafo.

Depois de me olhar atentamente, ele respondeu: “Lamento não poder atender o seu pedido; a edição do meu livro está esgotada”. Ao receber esta noticia, não me contive e dei-lhe os parabéns pelo sucesso alcançado, já indagando quando seria impressa uma nova edição. “O que??? Você não me entendeu”, e com um olhar risonho e maroto completou: “Quando eu disse Edição Esgotada, foi porque joguei tudo no esgoto!”

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