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Vocês já imaginaram o que é uma pessoa morar num hotel durante quinze anos? Era viver um mundo fascinante, encontrar gente de todos os tipos e das mais variadas profissões. Um enorme burburinho e este humilde contador de causos fazendo parte desta Babel cotidiana.

O nosso “causo” desta semana, embora tenha acontecido na década de 50, parece que foi ontem. Às vezes que me detenho e olho, vendo a imponência do prédio (Loja Insinuante) que foi construído no lugar do antigo Hotel Astória aqui em Itapetinga, bate-me uma recordação saudosa daqueles tempos de outrora.

Lembro-me também da herança que recebi e que por mais de quarenta anos vem me acompanhando. Não se trata de dinheiro, mas uma prisão-de-ventre indestrutível provocada pela alimentação farta e gordurosa, a fritura e toda a farinha que foi consumida no famoso hotel.

Para amenizar os momentos precisos, eu recorria a privada, como era chamada naquele tempo. Os sanitários do Astória eram geminados e a divisão feita por apenas uma folha de Eucatex caiada fingindo parede, praticamente nos tornava íntimos do vizinho: qualquer som que saisse, ouvia-se perfeitamente dos dois lados.

Num desses sanitários, tentando me aliviar, todas as vezes eu cantava a musiquinha costumeira: “Ai! Ui! Ai! Ui!” Num determinado dia, encontrei acompanhamento do vizinho do box ao lado que também gemia com seus ais e uis. Entre um gemido e outro, eu me deparei com um verso inserido na porta, bem apropriado para o momento:

Nesse lugar solitário
Toda vaidade se apaga
Todo mufino faz força
E todo valente se caga!

Ainda estava decorando a obra-prima deste poeta de privada anônimo quando ouvi no box ao lado aquele som característico de encontro com a água: Plum! Perguntei então para o irmão de sofrimento, “Aliviou aí companheiro?”, ao que ele me respondeu: “Que nada rapaz. Foi o meu relógio que caiu do bolso!”

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