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A vida tem me oferecido muitas surpresas ultimamente. Tem sido um prêmio conhecer novos amigos inteligentes e generosos através deste meu humilde site. As mensagens linsonjeiras que recebo me fazem um bem tremendo. Quem não gosta de ser acariciado com a afeição pública? Eu estou adorando, e muito. Para corresponder a toda essa gentileza, fiquem certos que irei até as raízes do sacrifício, para trazer a vocês leitores, novos divertidos causos.

O causo que vou contar nas linhas que se seguem é uma reminiscência onde preciso fazer ginastica mental para descrevê-lo. A figura pricipal é o meu amigo Vicente. Ele devia ter sobrenome ou outros nomes porém jamais procurei saber.

Conheci Vicente no Hotel Astoria, estabelecimento este que hospedava a maioria dos viajantes que vinham a Itapetinga. Na hora do almoço era aquela Babilônia, onde todos falavam ao mesmo tempo, trocando informações a cerca do comércio e das suas vendas. Sendo hóspede morador deste hotel, muitas vezes tomava parte nas conversas desses vendedores por estar na mesma mesa na hora do almoço. E foi justamente em um desses almoços que lá estava Vicente. Meio tímido, meio calado, ficava mais ouvindo que falando.

Aos poucos fui sabendo das suas atividades. Ele vendia jóias, viajava oferecendo a domicílio relógios, anéis, correntes de ouro e tudo concernente a este ramo. Nessa oportunidade eu lhe disse que vendia alumínio nas feiras, o que me obrigava também a estar sempre na estrada. Conversa vai conversa vem, acertamos ir juntos para “fazer a praça” de Ibicaraí-Ba. Viajamos juntos por muito tempo, eu vendendo alumínio, ele vendendo ouro. Quanta saudade desses bons tempos! Mocidade, aventura e desafio, como combinavam bem os três.

Certa vez, ao chegarmos na cidade de Itarantim-Ba, o ônibus em que viajavamos parou bem em frente a um pequeno hotel. Ao avistar a placa escrita Pensão Duas Irmãs, Vicente foi logo dizendo: “Gosto muito de hotel dirigido por mulher… Vamos para lá?”

– Vamos Vicente – respondi – você é quem manda.

Ao nos aproximar da pensão, uma senhora de meia idade veio nos receber. “Dona, vocês custumam oferecer café aos hospedes quando chegam?” indagou Vicente. “Pois não senhor, vamos fazer agora mesmo um cafezinho cheiroso e gostoso!”, respondeu ela.

Depois de servido o café, a senhora e suas duas filhas vieram sentar-se a nossa mesa. Queriam saber quantos dias ficariamos na cidade e sobre nossos negocios. As moças que estavam sentadas juntas, ao notar o nosso sotaque nordestino, perguntaram: “Os senhores são nortistas, não são?”

Vicente adiantou-se e respondeu: “Somos sim senhorita, meu amigo aqui é paraibano e eu sou cearense“. Uma das moças fazendo cara de espanto disse o seguinte: “Virgem meu senhor, o Ceará é terra em que se come gente!!

A afirmação prende-se a uma lenda de que houve uma sêca muito grande no século XIX, e então para a sobrevivência de alguns, foi praticado o antropofagismo. Vicente com a maior calma do mundo como quem entedera a pergunta, respondeu com esse disparate: “Nós come dona, nós come mesmo! Nós come no Ceará, nós come em Pernambuco, nós come na Paraíba, nós come em todos os estados do Brasil. Mas nós somos caprichosos, nós come e ampara!”

Esse era meu amigo Vicente…

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