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O causo desta semana exigiu de mim uma extrema “operosidade mental”. Ma valeu a pena. O resultado me deixou com o coração pulsando alegremente, não só pelo resultado mas também por trazer lembranças de uma viagem muito agradável.

Nosso causo começa no século vinte da era cristã, mais precisamente em 1958. Nesta ocasião estava próximo de haver eleições e, por razões comerciais, precisei viajar á São Paulo para fazer compras de papel. Minha atividade profissional – que conservo até hoje – é uma pequena indústria gráfica. Essa profissão que desempenho com muita satisfação, tem sido o meu pequeno ganha-pão ao longo de todos estes anos.

Morando em Itapetinga-Ba, a viagem até São Paulo, não era nada fácil. Era preciso deslocar-se para Vitória da Conquista – onde havia uma companhia aérea de nome Cruzeiro do Sul – pegar um avião até o Rio de Janeiro e depois outro que fazia a ponte aérea Rio-São Paulo, completando o destino desejado.

Após desembarcar no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ficamos eu e mais alguns passageiros – que seguiam para São Paulo – nos familiarizando com o lugar. Assim, dois grupos surgiram e, conversando, cada um dizia o motivo de sua viagem. Foi nesse papo que surgiu o personagem principal desse causo: Um jovem, aparentando uns vinte e cinco anos, moreno, estatura mediana, simpático e bastante eloquente, chamado Ricardo.

Ainda trago na memória a sua figura, que, com suas tiradas de auto-elogio, ajudou a passar o tempo. O que jamais saiu do pensamento, foi o bordão que nosso amigo empregava no término de suas histórias: “Eu sou PARADA!”.

Ele narrava vários causos. “Certa ocasião estava em uma rodoviária quando notei um estranho indivíduo me observando. Pelo jeito que o cara me olhava fui logo compreendendo tratar-se de um malfeitor. Como eu sou PARADA, falei bem alto para as pessoas que estavam juntos de mim que eu ia viajar para Botucatu. Mentira! Falei assim para despistá-lo. Ele foi na conversa indo me esperar no lugar onde passaria o transporte indicado. Fui para outro rumo e assim me livrei do meliante. Sabe porque? Porque EU SOU PARADA!” – dizia ele.

“Outra vez estava na Avenida Paulista prestes a pegar um táxi. Já com a porta do veículo aberto, desisti e mandei o taxista ir embora. Ele saiu me xigando e na esquina bateu o carro. Tive um pressentimento. Sabe porque? Porque eu sou PARADA!” – gabava-se de novo.

Essa altura já estavam anunciando o nosso vôo e convidando os passageiros a embarcar. Seguimos para o portão indicado e tomamos o avião. Depois de algum tempo, notamos a falta do nosso esperto companheiro. Ele havia perdido o vôo. Me lembro que cada um dizia uma piadinha a respeito do sujeito. Foi aí, que me veio um pensamento um tanto quanto impróprio para a ocasião: “Gente vocês já imaginaram se esse avião por isso ou por aquilo tivesse que fazer uma aterrissagem forçada? O que iria dizer nosso amigo ausente?”

Todos ficaram calados. Parece até que eu vi e ouvi a sua voz falando bem no meu ouvido: “Eu sabia que não ia dar certo esse avião, por isso desiti da viagem na última hora. Comigo é assim. EU SOU PARADA!”

Publicado originalmente em Agosto de 2005.

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