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Em causos anteriores, já tive oportunidade de confessar aos meus queridos leitores que minhas histórias são baseadas em fatos reais, envolvendo personagens reais. O que mais me comove nos relatos que faço são as lembranças saudosas de minha juventude distante. Ao evocar essas passagens, me emociono, pois, vivi intensamente esse pedaço de minha vida.

O protagonista direto do causo desta semana já é bastante conhecido do meu público virtual. Ele era um figura impar, cheio de astúcia e malandragem, expert em elaborar farsas e golpes. Só posso estar falando de Pedro Pixaco. Durante os anos em que tivemos aproximação testemunhei vários dos seus teatros, sempre eivados da mais fina malícia. Prevalecia sempre a Lei de Gerson, sobre todas as formas. Pedro, apesar de ser analfabeto de carteirinha e atropelar o português por todos os lados, com seu vozeirão de barítono e trajando-se impecavelmente, conseguia impressionar todos que não o conheciam.

Viajando um pouco através do tempo é fácil encontrar na literatura de Cordel e no Folclore Brasileiro, figuras com o perfil semelhante ao de Pedro. Quem não se lembra ou não conhece a história do celébre Cancão de Fogo? A sua esperteza foi decantada em versos que até hoje são citados como exemplos de sabedoria… Pedro Malasarte foi outro que também pintou e bordou levando sempre vantagem nos negocios. Entre outros da mesma escola, esses dois aqui foram os mais famosos. Muitos dos golpes que aplicaram são impagáveis. Pixaco, que apareceu depois, chegaria usando uma tática mais convicente e mais apropriada ao seu tempo.

Em João Pessoa, bem no centro da capital, existia uma rua bastante movimentada com o nome de Rua Beaurepere-Rohan. Complicado, não? Mas, o paraibano versátil como ninguém, aproveitou o nome de uma planta – que existia no início da construção do logradouro – chamada Melão de São Caetano e batizou-a assim: Rua do Melão. Pois bem, o nosso anti-herói pronto para aproveitar-se das pessoas que iam fazer compras nesta rua, tratou de armar uma barraquinha no lugar.

Para chamar a atenção de quem passava por ali, anunciava em voz alta: “Quem quer amarrar o Preto da Lantequéra e ver como num passe de mágica ele se livra da prisão?” E com essa propaganda imaginosa ia juntando gente para ver se realmente era verdade o que dizia o gigante de ébano. Antes, é claro, era solicitado ao público colocar algum dinheiro em um chapéu que ficava no chão pronto para receber o pagamento que a generosidade popular ofertava pelo espetáculo.

Pedro quando percebia o chapéu cheio de notas e moedas, convidava uma das pessoas que estava lhe assistindo, para amarrá-lo. Quando o carrasco solicitado terminava sua tarefa, Pixaco pedia para cobrir-lhe o corpo com um pano em forma de saco e, em poucos segundos, anunciava a vitória completamente livre das cordas que o prendiam. O aplauso era geral pelo feito notável.

Tudo ia bem até que em uma das apresentações surgiu um sargento marinheiro oferecendo-se para amarrar Pedro, no que foi prontamente atendido. O sujeito aplicou-lhe um nó tão forte, que até hoje Pedro dever lembrar o sofrimento que passou. Ele se debatia de todas as formas e suava por todos os poros, tentando se desvencilhar das amarras.

O miraculoso saco de outrora – um pedaço de pano que cobria a cabeça e ia até a cintura – era colocado pelo seu secretário particular e, também retirado pelo mesmo assistente no momento combinado. Pedro vendo-se perdido, capitulou e pediu ao ajudante que retirasse a cobertura – tão famosa por muito tempo – para ele respirar. Ao descobrir a cabeça, viu as pessoas rindo de sua situação ridícula. Pixaco não perdeu a esportiva, pedindo: “Por favor meu secretário, conte o dinheiro que está dentro do chapéu.”

O garoto contou tudo direitinho e falou: “Têm dezessete mil réis“. Pedro com a maior cara-de-pau, implorou: “Pois bem minha gente, eu boto mais três, completo vinte e dou para aquele marinheiro que me amarrou fazer o favor de me soltar!”

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