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Em outros causos falei sobre meu trabalho no Grande Hotel de Campina Grande-PB. O gerente era um conhecido de muitos anos e, por sorte minha, amigo do meu pai. Por essa razão foi fácil para mim arranjar este emprego. A minha função era atender os hospedes no bar do hotel, obrigação que fazia da melhor maneira possível, sempre recebendo elogios e gordas gorjetas no fim de cada mês.

Tudo corria as mil maravilhas. Eis que surge a noticia que o Hotel iria montar um cassino (naquele inicio dos anos 40, o jogo era permitido no país) com todos os jogos considerados de azar: roletas, jogos de cartas e uma infinidade de atrações para quem gosta de arriscar a sorte. O gerente Siqueira imediatamente pensou em transferir-me para lá, pois achava que a minha desenvoltura tinha o perfíl perfeito para essa nova atividade. Lisonjeado, agradeci, mas fiz ver ao amigo que estava satisfeito trabalhando no bar e que não ia trocar o certo pelo duvidoso.

Depois de ouvir os meus argumentos, Siqueira disse o seguinte:

– Quem falou que você precisa deixar de atender no bar? Pode ficar tranqüilo, o Cassino só começa a funcionar depois das 10 horas da noite, nesse horário, você já esta livre para faturar uma grana extra.

Olha gente, eu morava no hotel sem pagar nada pela hospedagem, isso por generosidade do amigo Siqueira. Não podia e não devia negar um pedido seu. Aceitei o desafio de trabalhar no caixa, um pouco temeroso porém confiante. Era uma loucura. Todas as noites vinham pessoas de todos os lugares para jogar. O falatório dos jogadores era um verdadeiro pandemônio.

Naquela época estavam hospedados no hotel um grupo de americanos, sem dúvida, os mais viciados. Se bem me lembro faziam parte de uma tal Comissão de Compras Norte-Americana. Todas as vezes que vinham para jogar traziam alguns amigos para se divertirem. Entre eles havia um senhor idoso que não jogava, só ficava apreciando.

Em dado momento um sujeito que estava jogando na roleta pediu a ele:

– Vem cá amigo dá um palpite aqui prá gente. Que número você acha que vai ser sair?

Vai dar Preto 17 – respondeu o velhinho convicto.

Alguns acreditaram e outros nem deram ouvido. Quando a bolinha parou de rodar o crupiê anunciou:

– PRETO 17!

Antes de prosseguir com o causo, deixe-me falar sobre a fiscalização do cassino. Existe uma equipe trabalhando para o funcionamento perfeito de todas as mesas: um Gerente, um Chefe de Salão e um Chefe de Mesa.

O chefe de mesa onde funcionava a roleta que sorteou o preto 17, imediatamente quis proibir o nosso convidado de ficar dando palpites.

– O que é isso? – Protestaram os jogadores. Esse senhor é nosso amigo! Diz novamente outro número que você acha que será o sorteado!!!

O velhinho ainda mais compenetrado disse:

– Agora vai dar Vermelho 19.

O crupiê ao fim da rodada, anunciou desesperado:

– VERMELHO 19!

Bom, nesse momento, os três responsáveis pelo andamento dos jogos (Gerente, Chefe de Salão e Chefe de Mesa), diante do grande prejuizo, pediram para o palpiteiro se retirar.

– Se ele for embora nós vamos juntos! – reagiram os jogadores.

Entre perder o público que jogava ou o prejuizo em dinheiro, a opção foi ficar com o segundo. Deixaram o velhinho continuar dando os seus palpites. Essa altura todos que estavam jogando não colocavam suas fichas até o sujeito dar seu veredicto.

– Agora vai dar a soma dos dois, 17 + 19 = 36, podem apostar no nº 36.

Deus do céu, não precisa dizer que foi este o número que saiu: 36.

Foi um verdadeiro delírio dentro deste cassino. O gerente aproveitando a euforia dos jogadores e, sem que ninguem percebesse, chamou o adivinhão no escritório e lhe ofereceu uma grande soma em dinheiro para que fosse embora.

– Pois não meu amigo, até mais ver – respondeu o velhinho.

Quando já ia saindo o gerente perguntou:

– Vem cá, me tira dessa dúvida: Se você sabe o número que vai dar por que não joga?

– Olha meu amigo, eu sou Perú de Roleta há mais de trinta anos. Nunca acertei um palpite, hoje casualmente acertei três. Queira me desculpar pelo prejuizo, eu só queria ajudar!

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