Recordar é uma alegria gostosa, e sempre me traz aos olhos do pensamento, boas lembranças. Outro dia, parei para relembrar meu tempo de jovem e de estudante na Academia de Comércio em João Pessoa, na Paraíba. Nela também estudava outro colega que jamais esquecerei. Ele morava na mesma rua que eu morava e, estudando na mesma academia, era óbvio nos conhecermos e ficarmos amigos graças a uma série de afinidades.

Ele era uma figura rara em todos os sentidos. Tradicionalmente milionário – descendente de uma família dona de um conglomerado de fábricas de tecidos em quase todos os estados do Brasil – apesar de sua fortuna, era a humildade em pessoa.

João Lundgren era o seu nome; apelidado carinhosamente de João Gordo pelos amigos. Ele tinha olhos bem azuis, a cara gorda e redonda, mais parecendo uma dessas crianças americanas que fazem propaganda na televisão dos produtos Johnson & Johnson.

João andava lá pelos seus 22, 23 e aparentava um garoto de apenas 16 anos. Os meus queridos leitores precisavam ver e ouvir o sujeito tocando seu violão. Era demais! Músico talentoso, exímio violonista e, como tudo isso não bastasse, um poeta genial.

Como não posso apresentar aqui seu dom musical, segue um pequeno poemeto e a sua história narrada pelo próprio João.

Em uma de suas visitas a fábrica de tecidos localizada na cidade de Rio Tinto-PB, João se apresentou disfarçadamente de operário – coisa que costumava fazer com frequência. Ele observava todo aquele burburinho de gente entrando e saindo e, no mesmo lugar, compôs estes versos bem adequados para aquela ocasião:

Quando apita a hora do almoço
Há um grande alvoroço
Entre homens e mulheres.

Antes de sairem para a rua,
Cada qual procurava a sua namorada
Comigo elas não querem nada.

Apesar de ser o mais antigo operário
Quando entro com a minha conversa
Elas dizem: Não interessa.

E nada feito,
Como é que um homem
Pode viver assim desse jeito?

Como nada pode ser perfeito, João tinha um pequeno vício: adorava fumar charutos. Para a época, era uma coisa incomum que chamava à atenção, mas ele não dava importância aos comentários alheios.

Por morarmos na mesma rua, estavamos sempre nos encontrando e trocando confidências de ocorridos interessantes do nosso cotidiano. Em uma dessa ocasiões, João contou-me o seguinte:

– Getro, você se lembra de Olegário? Aquele cara que te apresentei na fábrica outro dia?

– Me lembro sim – respondi.

– Pois bem, como ele gostava de pitar um charutinho, sempre que o via, lhe dava alguns de presente e assim nos tornamos amigos. Um dia ele me encontrou na saída, me chamou assim de lado, como se fosse contar algum segredo e fez o seguinte relato:

“Olha João, você sabe como gosto de fumar um charuto e não é toda hora que posso dispor deste bichinho gostoso. Um dia quando acabei de almoçar, tomei um café quentinho e tive uma vontade danada de fumar meu charuto. Porém, como não havia nenhum em casa, sai para comprar na tabacaria mais próxima. No meio do caminho, olhei para um canto do passeio e lá estava um charuto quase inteiro, desperdiçado no chão.

Estava com sorte, além de matar meu desejo, ia economizar um dinheirinho. Quando já ia apanhar o bicho, surge um conhecido. Fiquei ali disfarçando até ele ir embora. Ao perceber o campo limpo, não tive dúvida, me abaixei e peguei o charuto. Olha João, que hora ingrata a minha. Tenho raiva de cachorro até hoje!!!”

Eis aí a textura e o humor desse maravilhoso poeta.

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