Tags

,

Meus queridos internautas, passei alguns meses ausente por motivo alheios a minha vontade. Muitas vezes, os acontecimentos tristes, surgem de forma súbita e inesperada. Para melhor conhecimento dos fatos, apresento o perfil desse obscuro contador de causos: Octogenário, hipertenso e outras cositas próprias da cronologia da idade. Apesar deste quadro clínico, não tirava a pressão arterial, não procurava um médico, nem fazia check-ups e abusava da comida gordurosa.

O colesterol estava nas nuvens e o derrame foi inevitável. Na linguagem médica fui acometido de um AVC. Estou retratando mais ou menos o que me aconteceu para justificar as razões do silêncio prolongado. Foi um acidente que eu bem poderia ter evitado. Mas, como não disponho de recursos premonitórios o jeito foi arcar com as consequências. Como seria bom achar o significado do enigma que produz cataclisma nas células do nosso corpo. Gostaria de conhecer o segredo desses elementos carregados, misteriosos, que explodem dentro da gente causando dor – não só daqueles que recebem – a todos que estão a sua volta. O que era mal já passou, daqui em diante, vida nova. Vou saborear todo resto de tempo que me for dado, aproveitar os momentos em que a vida me consagrar a menor alegria, pois é vedado ao ser humano conhecer o futuro.

Gostaria de aproveitar essa coluna para agradecer a todos os amigos que me enviaram generosas mensagens, mostrando suas preocupações com meu estado de saúde e fazendo correntes de orações pedindo a Deus o meu breve restabelecimento. Muito obrigado a todos vocês do fundo do coração. O meu caminho é seguir em frente, agradecer a Ele as bênçãos que recebi e voltar a contar os meus causos.

Mas vamos logo ao que interessa. Durante algum tempo relutei em colocar nessa coluna o mais ou menos irreverente acontecimento que agora resolvi narrar, nos rabiscos que seguem abaixo.

Começo apresentando minha filha, a psicóloga Fátima, formada em medicina da alma, casada com Dr. Luiz, geólogo, que apesar do pergaminho, demonstra uma humildade que o torna digno de todo o respeito do mundo. Há alguns anos ele me convidou para ser testemunha do casamento de sua irmã na cidade de São Paulo. Não podendo me furtar a esse agradável convite, dei o meu sim e no dia combinado, viajamos eu e minha esposa. Chegando lá, depois das recepções dos familiares, ficamos aguardando a hora das bodas que seria consumada no dia seguinte.

Amanheceu um dia bonito (parece que a natureza também foi convidada para o enlace) e os convidados começaram a chegar. Eu, me sentindo observado pelos presentes, as vezes ouvia certos comentários por estar trajado de branco: “Este senhor é um médico, amigo da família da noiva!” Ouvia tudo e fazia de conta que não era comigo. Discretamente notei um grupo onde todos pareciam bastante
alegres, visto as risadas gostosas que surgiam. Não resistindo, me aproximei. Um deles disse assim: “Baiano conta uma piada!”

Eu, com minha modestia, aproveitei a ocasião: Olha gente, o que vou contar prá vocês não é piada, mas um causo verdadeiro. É a história de uma família que reside em minha cidade, Itapetinga-Ba. Os membros desse clã viviam em constante desacordo. O chefe, de uma preguiça monumental, vivia a maior a parte do tempo dedicando-se ao seu esporte favorito, ficar deitado na cama sem fazer nada.

Quando os filhos reclamavam da sua inércia, ele ponderava com a seguinte frase: “O que tiver de ser meu, vem ao meu encontro aqui mesmo deitado na cama. Conheço gente que se matou de tanto trabalhar e não conseguiu juntar nem um centavo. Portanto, meus filhos,  meu conselho é que não façam muito esforço para conseguir alguma coisa, o que tiver de acontecer de bom, vem prá vocês deitados na cama”.

“O tempo ia passando, e a família na mesma rotina. O pai sempre deitado e os filhos reclamando com ele pela atitude passiva. Passado um tempo, a filha mais nova foge de casa deixando um bilhete com os seguintes dizeres: “Meu pai, estou indo a procura de uma vida melhor, adeus, até qualquer dia.” A reação do pai assustou os outros filhos: “O que houver de ser, ela encontrará em qualquer lugar.” E virou-se para o outro lado da cama como se nada de anormal tivesse acontecido.

Depois de um tempo, a filha volta de São Paulo para visitar os parentes. A garota chega dirigindo um carrão novinho em folha e trazendo muitos presentes. Com o som da buzina, o pai se levantou e foi ver quem era. Imaginem vocês a surpresa do velho. E num gesto de alegria incontida, os dois se abraçaram comovidamente. Passada a euforia, vieram as indagações: “Minha filha, me diga como você ganhou tanto dinheiro!” E ela, sem pensar duas vezes, respondeu: “Ora meu pai! Segui a risca o seu conselho. Esse carro e os presentes que eu trouxe para todos vocês, ganhei deitada na cama!”

Anúncios